25.4.12
provisional.
23.4.12
povoando árvores
22.4.12
Ela
Parecia que tinha acabado de acordar, mas o relógio já marcava dez e meia da noite. Espreme alguns cravos, acende a luz do espelho, abaixa na mesma gaveta onde o secador jazia e tira uma pinça.
A cada fio, os olhos se fechavam em leves espasmos e com isso reconhecia a dor da adolescência. Sentia no arrancar de pêlos os tantos anos em que essa mesma ação já nem era mais sentida.Com o buço já bastante vermelho, pára , espreme outros cravos de seu nariz e levemente passa a escova em seu cabelo bastante grisalho.
Mãos e pentes há muito haviam deixado de acariciar aquela cabeça. Um cabelo seco e morto banhado a água quente junto ao xampu mais barato da farmácia ao lado de sua casa.
Ela já não tinha mais sexo, perdera seu nome, seu jeito, ela esquecera quem fora, já não sabia a diferença entre ser triste ou feliz. Alguns dizem que ela já não sentia.
Porém, naquele dia, talvez terça ou sexta, domingo ou segunda, ela tinha voltado a olhar o espelho. Ela se cutucava, ela queria mudar aquilo que via, portanto algo a incomodava. Escova e lágrimas, dos olhos azuis saltavam a água mais pura, ela estava ouvindo seu coração bater, de algum lugar brotava vida.
Pega o secador, liga na tomada e sente o vento e o calor em sua cara. Arrepia-se com a brisa em cada fio de seu cabelo e relembra seu pai e os tantos tombos de bicicleta. Ele atrás gritando palavras de força á filha do pedalar bambo e o vento assoviando em sua orelha.
Aos poucos, aquela velha alma vai perfilando e adentrando um território desconhecido. Passa sombra, desenha vermelho na boca, contorna os olhos, realça o azul, passa fio dental, escova os dentes, colori as unhas, espreme mais cravos.
Para ela, era outra. Para os outros, era ela em outra. Apesar do horário, arriscou andar na rua e finalmente passou despercebida. Sua aparência já não repugnava, as pessoas que a conheciam olhavam fixamente, mas achavam que não podia ser verdade tudo aquilo.
Volta em seu apartamento, tira toda maquiagem , recorta, desmonta, retrai, suja, remonta. E ao se olhar no espelho, entende o seu prazer, o seu sexo, o seu. Ela não era uma , não era feia, feliz ou triste. Ela era dúbia, bonita e feia, amarga e doce, suja e limpa. Ela era.
Queria máscaras e mentiras. Queria lembranças e verdades. Queria sonhos e feiúras. Queria o desconhecido, queria ser olhada e não ser entendida.
Ao colocar sua cabeça no travesseiro, tinha certeza que aquilo não mudaria. Amanhã às dez e meia, ela iria se olhar no espelho mais uma vez.
21.4.12
(re)integração
te direi em segredo
aonde leva esta dança.
e os grãos de areia do deserto
giram desnorteados.
feliz ou miserável,
gira apaixonado
em torno do sol.
19.4.12
a cara da gente
a gente não se contenta
de tanto guardar
o nosso negócio é
simplesmente
compartilhar.
17.4.12
12.4.12
uma pequena história sobre cachorros
Um santo na estante
Esse jeito da "dinda", vou te contar!
Suas promessas diárias à São Genésio, a única santidade que ela poderia ser devota. Não era mulher de Bíblia, não lembrava a última vez que tinha entrado em uma igreja e dizia que já bastava ser velha, carola já era muito "pé no saco". Mas com São Genésio sempre foi diferente, se eu perguntasse ela afirmava convicta que não rezava a santo algum, pedia para um amigo pôr mais arte no mundo. Aquelas mãos pequenas agarrando forte e dando um beijo em um pequeno santo de madeira que dormia em cima da cabeçeira do quarto. À mim, ainda criança, um mal talhado pedaço de árvore que, às vezes, eu deixava o filtro de lado e revelava meus pensamentos em tom traquina. Ela saia correndo atrás de mim , mais rindo do que dizendo: " Menino rabugento que não deixa São Genésio entrar!".
Quanto mais se cresce , mais fortes são as negativas. O que , antes, era uma descrença de menino viraram agressões verbais, cuspidas diariamente em sua cara. Agressão calculista: queria ver ela no chão, convalecendo e implorando por perdão, afirmando em berros ser completamente louca. Ela trazia tudo o que eu menos podia. Ela esclarecia tudo o que eu não entendia. Ela dizia "sim" enquanto eu queria combater "nãos'. Queria falar de arte, enquanto eu dormia em frente a televisão. Nos finais de semana , acordava cedo e aumentava no máximo Chico , Caetano e Gil e se eu gritasse, como quase sempre fazia, passava a mão em minha cabeça e retrucava em tom controlado: " Que o grito seja de luta , que essa voz aprenda a cantar". A raiva ardia e para não cometer nenhum assassinato, ainda com alguém de minha família, mandava ela tomar no cú e voltava para meu quarto.
Não me conformava. Como ela poderia falar de arte? Porque vestidos coloridos, unhas pintadas de cores diferentes, cabelos cortados de forma estranha? Porque essa merda de gosto musical? Que se foda a arte!
Pois é! Realidade doída: acabou que a arte foi quem me fudeu. Minha tia não mudou, o seu São Genésio permanece na mesma estante para ela beijar todo dia antes de dormir. Sua luta e seus pedidos continuaram. O Chico ainda me acorda nos finais de semana. A mudança é que , agora, eu faço parte dessa legião. Meu grito virou luta e minha voz, a minha maneira de viver nesse mundão, minha forma de me entender, o canto que ela tanto queria. Hoje sou eu quem usa as roupas estranhas, quem sonha com a arte dentro da realidade brasileira. O tempo todo. Cada dia mais. Hoje é minha tia quem chora me vendo no palco. Hoje, ajoelhamos juntos para São Genésio e pedimos nosso ganha pão.
Lucas Galati Balieiro
11.4.12
Sem título 2
10.4.12
pílulas
cotidiano
sombra saliente, humorzinho lúgubre, parte monstro, e não médico. cadê a neutralidade? só pipocam os opostos complementares e inconciliáveis. um chá de camomila deve melhorar. não, nada feito. beber litros e litros de água, para limpar algo imundo. menos ainda. sono. dormir deve ajudar de alguma forma. mas onde está morfeu? então um livro. um livro sempre é uma bela de uma muleta em ocasiões como esta. não, nada, ninguém, nenhum, nem eu. fita-a, encara-a, mostra tua coragem, não fuja da falta de véu de sentido, da consciência sem cores que às vezes te toca. não seja fraca, encare-a, olha-te no espelho. observe dentro dos teus próprios olhos. como estão as pupilas? sofrem de midríase, de eterna dilatação. abusou de álcool? tem síndrome do pânico? anda nutrindo sentimento amoroso por alguém? sim, de tudo um pouco. me enxergo, me enxergo. às vezes dói, às vezes é bom. se continuar assim, em breve não terá mais íris. olhos apenas com pupilas, negros, pretinha. devia ter pupilas verticais, como algumas serpentes, como as raposas, como os lobos. presa nenhuma escaparia, assim como não me escapo. mais chá de camomila iria bem. chega de chá! pra quê tanto chá? porque gosto de chá, ué. não pode? pode, claro. mas cuidado com aquilo que você quer acalmar dentro de você. às vezes a gente acalma o que deve ser despertado. hummm. não tinha pensado nisso. você tem razão, chega de chá. vou fazer um café, mas acabou o pó. e agora? como posso impedir que essa coisa dentro de mim durma? eu a quero inteiramente desperta! mas tomei chá demais. me ajuda, me mostra um caminho? aham. levanta desta cama, hoje é dia de pagar o aluguel.
