a menina queria ficar perto da cachorra. a cachorra também queria ficar perto da menina. a oportunidade de ficarem juntas surgiu, então elas a aproveitaram. "agora seremos felizes juntas", sentiram, cada uma à sua maneira. passaram-se dias, uma fazendo companhia à outra. a cachorra começou a perceber, então, que perto da menina apenas chovia. toda aquela água assustava a cadelinha, que queria algo acalentador, o verão perene, o sol sempre brilhando em meio àquele monte de nuvem. ela achava estranho que a menina conseguisse fazer das nuvens algo maior do que o sol. aquele monte de água que existia perto da menina não deixava a cachorra em paz em seu existir, a menina a atordoava. como numa dança que de uma hora para outra começava a acontecer, ambas observavam aquelas gotas que se chocavam. frenético baile cuja única música é o assovio do ar. a cachorra tinha medo daquele monte
de água que a menina emanava, pois pensava que, como seus pelos caídos no chão branco de azulejo, seria levada por aquele pano amarelo embebido em um líquido transparente que a menina passava no chão todos os dias. aquele monte de água nunca aparecia quando havia mais
gente junto das duas. era um fenômeno que só se dava quando estavam
sozinhas, juntas, caladas, uma perto da outra, uma tentando confortar a
outra sem saber o motivo, sem nada nem ninguém por perto. apenas as
duas. a vida da menina passou a ser em função da cadela. (não sabia se
fazia tudo pela cachorra, tudo por si ou tudo por ambas, numa simbiose
canis-humana, mas gostava de pensar que era tudo feito pela sua
cadelinha) todos os seus movimentos eram realizados por aquele bicho:
água no potinho, comida à disposição, chão varrido, sujeira
imediatamente desfeita, pano passado. a rotina da menina se refez desde
que a cachorra passou a estar perto dela todos os dias. no fundo, a
menina desejava a mesma "liberdade" da cachorra, mas aquilo não era
possível. a menina, como ser humano, tinha obrigações a cumprir;
obrigações essas que a cachorra não possuía. aquela dinâmica fazia da
menina alguém ainda mais vivo, mas a imagem da cachorra aprisonada em um pequeno apartamento, como
numa projeção de sua própria impossibilidade de ser livre, a
entristecia. "os animais", pensava, "como é forte sua ligação com a
terra". mas a menina pouco entendia da terra... só entendia da água. ela não era como a cachorra
que estava sempre a seu lado, que vivia e aceitava, ainda que de forma
assustada, as leis impostas pela natureza da mãe que tinham em comum. se
punha a pensar: "a água aflige os seres mais sensíveis, que se veem sem força para barrá-la ou compreendê-la". ficava horas pensando no porquê do
medo. o que, afinal, se passava dentro daquela cachorra quando a água,
símbolo dos primórdios da vida, brotava das nuvens que a menina pintava
no céu tão azul que a cadela desejava? a menina começou, de sua já conhecida forma lenta e investigativa, a entender como é delicado lidar com um bicho,
ter um animal esculpido no cinza e no cimento da cidade, como faz um
taxidermista com os bichos que encontra por aí, querendo mantê-los
sempre próximos ao ser humano, achando - em sua necessidade de pensar
que somos o centro do universo - que ali os animais estão seguros.
seguros e "vivos". a noite caiu, e já não chovia. mas a menina,
insistente em sua natureza aquática, não deixava de verter água. desta
vez, dos olhos (e não mais das nuvens que criava sobre si e sob o céu).
observou a cachorrinha deitada no sofá preto, com a cabeça apoiada em
suas coxas protegidas por um tecido também preto. a cadela se
confundia naquele cenário. não fosse pelas patas tingidas de marrom ou pela pequena
mecha branca em seu peito peludo, tornaria-se invisível. a menina observou e observou,
escutando a música que o rádio cantava, uma canção, coincidentemente, de
nome "space dog". a menina reservou um espaço do seu tempo para
refletir o quão significativo era para ela aquele cão que, mesmo
dormindo, lhe implorava compreensão e carinho, como uma criança que ainda não configurou o mundo das pessoas grandes, e pensou: "eu queria te proteger de toda a minha água, mas não consigo". tragou de forma seca a bebida envolta em um copo de acrílico e falou dentro de si, dando, num movimento telepático, seu singelo recado à cachorra: "você é como esta bebida de maracujá: de uma doçura azeda que perturba". fumando o último cigarro do maço, sentiu mais uma vez o sabor agridoce de estar(em) viva(s).
Um comentário:
como um filme na minha cabeça...
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