8.4.12

Sem título

Não é preta. A foice, eu pelo menos, nunca vi. Não assusta e o cheiro você acostuma. Se é bom? Quem sou eu para julgar? Vixi... é todo dia né? Às vezes, explodem sim. Uma luz forte, mas a ciência tá explicando tudo hoje que você nem mais se assusta. Eu nem gosto muito disso. Essa coisa do preto no branco, não dá nem mais pra duvidar. Poxa, lembro quando era criança, o gosto bom da surpresa. De quando meu pai trazia um doce da padaria, um pacote de figurinha. Quando voltava do trabalho com vontade de rodar pião.
Mais voltando... então é isso! A morte , pra mim, é meio sem nome. Estranho mesmo é você parecer mensageiro dela. Sem jeito, pedir licença, ter que tirar das pessoas sua dor mais funda, enrijecer e segurar todo o peso da pergunta e a angústia pela resposta: "Podemos enterrar?".
Ah! Você vê de todo tipo! Os piores são aqueles com umas cinco ou seis pessoas. Você fica imaginando a vida daquela pessoa, sabe? Foi tão ruim assim para ninguém se importar que ela foi embora? Acho triste, sabe? A morte pra mim é dura.
Não é que a gente não sente. Sente sim. Trabalhar todo dia com o fim é racional demais e se paga por isso. Quando você vê, já não se pensa em começos e a barriga não mais esfria. A eternidade acaba sendo só nos contos para os seus filhos , antes de irem dormir. A morte não é curva.
Olhar um rosto desbotado, por mais desconhecido que seja, e pensar nele sorrindo, que ele teve sua primeira noite de amor e teve medo de alguma coisa. A morte esconde.
Então acaba sendo isso, fica sem nome por estar ligada a uma ideia de trabalho. Cada dia é de um jeito diferente, mas tão igual na sua essência, entende? A única certeza é de que , dali pra frente, acabarão as respostas e aos que ficam resta apenas sossegar com as memórias.
Pra mim, fica a sensação de que lido com ela todo dia e cada dia eu menos a conheço. Está na minha frente, mas eu nunca a vi. Quando vir, não vou estar aqui para te contar. A morte é amiga imaginária, converso todos os dias com ela, mas não sei como ela é.

Lucas Galati Balieiro


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