12.4.12

Um santo na estante

Esse jeito da "dinda", vou te contar!

Suas promessas diárias à São Genésio, a única santidade que ela poderia ser devota. Não era mulher de Bíblia, não lembrava a última vez que tinha entrado em uma igreja e dizia que já bastava ser velha, carola já era muito "pé no saco". Mas com São Genésio sempre foi diferente, se eu perguntasse ela afirmava convicta que não rezava a santo algum, pedia para um amigo pôr mais arte no mundo. Aquelas mãos pequenas agarrando forte e dando um beijo em um pequeno santo de madeira que dormia em cima da cabeçeira do quarto. À mim, ainda criança, um mal talhado pedaço de árvore que, às vezes, eu deixava o filtro de lado e revelava meus pensamentos em tom traquina. Ela saia correndo atrás de mim , mais rindo do que dizendo: " Menino rabugento que não deixa São Genésio entrar!".

Quanto mais se cresce , mais fortes são as negativas. O que , antes, era uma descrença de menino viraram agressões verbais, cuspidas diariamente em sua cara. Agressão calculista: queria ver ela no chão, convalecendo e implorando por perdão, afirmando em berros ser completamente louca. Ela trazia tudo o que eu menos podia. Ela esclarecia tudo o que eu não entendia. Ela dizia "sim" enquanto eu queria combater "nãos'. Queria falar de arte, enquanto eu dormia em frente a televisão. Nos finais de semana , acordava cedo e aumentava no máximo Chico , Caetano e Gil e se eu gritasse, como quase sempre fazia, passava a mão em minha cabeça e retrucava em tom controlado: " Que o grito seja de luta , que essa voz aprenda a cantar". A raiva ardia e para não cometer nenhum assassinato, ainda com alguém de minha família, mandava ela tomar no cú e voltava para meu quarto.

Não me conformava. Como ela poderia falar de arte? Porque vestidos coloridos, unhas pintadas de cores diferentes, cabelos cortados de forma estranha? Porque essa merda de gosto musical? Que se foda a arte!

Pois é! Realidade doída: acabou que a arte foi quem me fudeu. Minha tia não mudou, o seu São Genésio permanece na mesma estante para ela beijar todo dia antes de dormir. Sua luta e seus pedidos continuaram. O Chico ainda me acorda nos finais de semana. A mudança é que , agora, eu faço parte dessa legião. Meu grito virou luta e minha voz, a minha maneira de viver nesse mundão, minha forma de me entender, o canto que ela tanto queria. Hoje sou eu quem usa as roupas estranhas, quem sonha com a arte dentro da realidade brasileira. O tempo todo. Cada dia mais. Hoje é minha tia quem chora me vendo no palco. Hoje, ajoelhamos juntos para São Genésio e pedimos nosso ganha pão.

Lucas Galati Balieiro

2 comentários:

Cosmonauta disse...

eu tô adorando a inspiração que a vida e este blog nos estão proporcionando! adorei este post. me lembrou das nossas tantas conversas na varanda... que venham muitas outras! nayara-hêi!

Anônimo disse...

Eu tbm pequena!! Continuemos assim... está lindo! E um viva a São Genésio!!