11.4.12

Sem título 2

A tempestuosa caligrafia do verbo adiantou da boca as reminiscências douradas entrevistas num calabouço de coxas soberbas como um Caravaggio que se espreita numa esquina penumbrosa e até que o líquido semear das entranhas brotasse qual champagne do fosso de teus olhos tanto que minha encarnação endiabrada espreitasse na curva da orelha o caminho mais além de uma planície de relva encaracolada no torpor que encontra a nuca molhada. E pelos campos os cubistas me invejando e arrebitando narizes desencontrados perguntassem onde encontrei tantas nuances e cores pasteurizadas e tantas arestas e eu diria como quem diz a hora displicentemente, A luz encontrou seu descaminho num corpo desejado através das eras e eles ririam abraçados esperando que a chuva apagasse o ultimo Modigliani do negrume da história. E eu encontraria um ou dois arquitetos e um punhado de músicos traçando planilhas e pautas e uns emaranhados de claves e sustenidos e tons de todas as formas e traços e curvas e retilíneos horizontais e curvilíneos polígonos e com seus queixos embasbacados esgueirando a profética prótese de suas dúvidas estéticas eu lhes soubesse as respostas de suas demandas e sabedorias e a cada um encarando responderia que olhos que de uma leveza lunar não haveria traço ou pausa e que som ou plano traçado encontraria sustentação para os olhos da mulher que me olha e num dia eu inexistiria por existir demais e nos átimos seguintes que uma piscadela relevasse algum fôlego de vida então suas pupilas enormemente gordas como que cheias de amor num exemplar banquete da sensualidade dos tomos arcanos que me toma de gorgolejantes goles eu seria findo sem mesmo ter consciência do prazer budista de inexistir e diria mais uma vez, A vós foi dado graças, tu ó arquiteto, que desentranha a passividade das linhas, e tu ó músico, a vós foi dado graças, tu que apazigua a alquimia das febres das gentes, e do amor ficariam os riscadores e os tocadores plenos e iriam pelo caminho abraçando-se e beijando-se dando graças à carne e a ostentação dos olhos que podiam enxergar e das orelhas que podiam escutar. E se pudesse harmonizar a concupiscência física dos astrônomos e dos poetas e pudesse escutar a poesia clarividente sacudindo o perímetro dos sonhos empanturrados de metafísicas de buracos negros e caleidoscópicas visagens metaforizadas da palavra preexistente extinguindo numa supernova de combinações semânticas para dizer o nome da mulher que chama e o poeta se deitaria e o astrônomo olharia para o céu e eu diria, Levante-se em reverência, pois que a palavra lhe foi revelada ó poeta criador dos céus imagéticos de letras incompreendidas, Caia de volta para o chão o astrônomo que de ti os astros estão exorbitados e ouça os sons que dançam em pantomimas diante de teus olhos, e os dois chorando correriam de encontro ao abismo atraídos pelo nome transfigurado da paixão e deixariam de compor e deixariam de observar e nunca mais saberiam de nada, assim mesmo sendo afortunados. Até que um dia os artistas equivocados extinguissem suas buscas e a ciência não desvendasse mais e nem os teóricos se obstinassem.

gentilmente cedido ao 3ou+ por George Saraiva

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