15.5.12

NOSSA PRIMEIRA VEZ


Aquele dia ela me chamou de canto. Carregava na voz um embargo, começou uma palavra, se arrependeu na metade: ainda não era a hora certa. Preferiu sentar, tinha pensado muito naquilo , não poderia deixar para outro dia. No bolso, um diamante brilhava, no peito: um pingente de família; em seus dedos, sangue pisado – agora os roía – e uma força constante para manutenção uniforme das figas. Já sentada, olhava para o lado, nunca soube direito chorar, se achava muito feia: suas lágrimas caiam demais, eram tortas, líquidas demais, eram doídas, podiam queimar. Ela queria um “pronto falei”, sem reação, sem abraço amigo, uma prova de que ela aguentaria. Alguém que comprovasse sua tristeza e a deixasse sofrer, sumir, morrer. O aval de que se virasse as costas, ninguém viria atrás, poder mudar de país e rasgar sua identidade, colocar uma peruca, pintar o cabelo de loiro, raspar a cabeça.

Quando conseguia olhar bem de pertinho, abaixava a cabeça parecendo querer quebrar. Permanecia assim por curtos minutos, tempo em que enegrecia e pedia por mais força,para não estar ali. Orava baixinho para quem não acreditava e duvidando pedia, transviando seu ateísmo e admitindo seu desespero, o fim daquela certeza que, agora, a movia, que sua angústia pudesse ser questionável. Pedia por outro ponto de vista, que o futuro, por hora, desanuviasse, que uma bola de cristal rolasse entre eles dois e dali se configurasse um plano diferente, que desculpas pudessem mudar alguma coisa, que pudesse deixar o papo para depois. Mas aquele dia ela me chamou de canto.

Ela sem dizer nada, eu sem perguntar o porque. Ela não querendo escorrer seu primeiro sentido de Verdade, eu quebrando meu envólucro, entregando o martelo para ela quebrar a casca. Eu sentindo a primeira vez que olhei para uma menina e vi uma mulher. Eu a amava e somente agora sabia, ela deixava uma lágrima cair. Eu segurei em suas mãos, ela virou de novo sua cara. Eu comecei uma palavra, não consegui chegar perto de seu fim, ela teve vontade de rir. Eu arrisquei um abraço, ela encostou em meu ombros. Eu virei, ela não negou. Terminamos em um beijo que eu nunca esqueci.

No fim, levantou e, mais tranquila, soltou outro beijo, agora em minha bochecha. Não disse nada. Ela atravessou a rua e eu nunca mais a vi. Nunca soube porque tinha me chamado de canto, nunca entendi seu sofrimento. Mas descobri que a amava e ela me olhou no fundo. Era a minha primeira vez. Nos amamos em silêncio, provamos de um beijo quente. Eu nunca mais a vi.

Lucas Galati Balieiro

3.5.12

enxurradas, trilhas, rastros

teorizar é necessário, mas não apenas disso vive o homem. passado o tempo de máxima inconsciência, assim como o de lógica, de raciocínio puramente matemático e de vontade de deciframento, a consciência - já um pouco mais expandida por tanto ter visto e pensado e sentido e mergulhado em si mesma - aflora em vontade de ação, de vida, de liberação mental e corporal, de verdadeira integração. o inconsciente passa a gritar por meio de sonhos e de palavras, que ao serem ditas num fluxo sináptico incontrolável refletem em quem as colocou pra fora como um questionamento: "mais uma equação?". vamos lá, minha cara, talvez uma última equação lhe tenha escapado: teoria + prática = experiência de vida. a bagagem já lotou, já pesou, todas as roupas dentro da velha maleta já foram jogadas no chão e apenas algumas poucas coninuaram servindo. agora, com a mala quase vazia (pra que novamente possa ser preenchida) e sem o conhecido desejo de acúmulo, com a conta já feita (e paga), é hora de agir, de colocar todo o aprendizado em prática, de voltar a caminhar, a compreender que o milagre das borboletas são elas próprias. é tempo de viver.

QUANDO SOUBERAM

E o ônibus até levaria,
mas sua mão caiu antes disso,
caiu pesada,
seu lado esquerdo adormeceu,
ela ainda acreditava em pressão alta.
A respiração falha adormeceu as palavras,
sacrificou tônicas,
ela tentou discar o celular,
mas o ônibus precisava parar.
Ela quis descer,
sua perna já não mexia.
Tentou fechar os olhos,
a dor escurecia.
Quando conseguiu dizer,
sua voz escorreu para fora:
ela tremeu,
ela jurou,
ela tentou pedir desculpas.
Ninguém a via.
Eram músicas muito boas para serem ouvidas,
conversas mais interessantes a serem discutidas,
era comprovado que daria muito trabalho.
Sua pressão mentiu e o coração infartou.
Ela se foi e ninguém viu.
Ela era mais uma,
pequena demais para alguma importância,
idosa o suficiente para garantir um assento,
tinha muito cabelo branco para ouvir palavras de importância.
Foi embora sem entender desejos por ter sempre feito pedidos.
Ela tremeu,
ela jurou,
ela tentou pedir desculpas.
Quando souberam,
ela não disse,
morreu olhando para fora,
era seu primeiro desejo.
Ela morreu sorrindo…

Lucas Galati Balieiro

(texto postado por mim, mas de autoria do lucas)

2.5.12