Aquele dia ela me chamou de canto. Carregava na voz um embargo, começou uma palavra, se arrependeu na metade: ainda não era a hora certa. Preferiu sentar, tinha pensado muito naquilo , não poderia deixar para outro dia. No bolso, um diamante brilhava, no peito: um pingente de família; em seus dedos, sangue pisado – agora os roía – e uma força constante para manutenção uniforme das figas. Já sentada, olhava para o lado, nunca soube direito chorar, se achava muito feia: suas lágrimas caiam demais, eram tortas, líquidas demais, eram doídas, podiam queimar. Ela queria um “pronto falei”, sem reação, sem abraço amigo, uma prova de que ela aguentaria. Alguém que comprovasse sua tristeza e a deixasse sofrer, sumir, morrer. O aval de que se virasse as costas, ninguém viria atrás, poder mudar de país e rasgar sua identidade, colocar uma peruca, pintar o cabelo de loiro, raspar a cabeça.
Quando
conseguia olhar bem de pertinho, abaixava a cabeça parecendo querer
quebrar. Permanecia assim por curtos minutos, tempo em que enegrecia e
pedia por mais força,para não estar ali. Orava baixinho para quem não
acreditava e duvidando pedia, transviando seu ateísmo e admitindo seu
desespero, o fim daquela certeza que, agora, a movia, que sua angústia
pudesse ser questionável. Pedia por outro ponto de vista, que o futuro,
por hora, desanuviasse, que uma bola de cristal rolasse entre eles dois e
dali se configurasse um plano diferente, que desculpas pudessem mudar
alguma coisa, que pudesse deixar o papo para depois. Mas aquele dia ela
me chamou de canto.
Ela
sem dizer nada, eu sem perguntar o porque. Ela não querendo escorrer
seu primeiro sentido de Verdade, eu quebrando meu envólucro, entregando o
martelo para ela quebrar a casca. Eu sentindo a primeira vez que olhei
para uma menina e vi uma mulher. Eu a amava e somente agora sabia, ela
deixava uma lágrima cair. Eu segurei em suas mãos, ela virou de novo sua
cara. Eu comecei uma palavra, não consegui chegar perto de seu fim, ela
teve vontade de rir. Eu arrisquei um abraço, ela encostou em meu
ombros. Eu virei, ela não negou. Terminamos em um beijo que eu nunca
esqueci.
No
fim, levantou e, mais tranquila, soltou outro beijo, agora em minha
bochecha. Não disse nada. Ela atravessou a rua e eu nunca mais a vi.
Nunca soube porque tinha me chamado de canto, nunca entendi seu
sofrimento. Mas descobri que a amava e ela me olhou no fundo. Era a
minha primeira vez. Nos amamos em silêncio, provamos de um beijo quente.
Eu nunca mais a vi.
Lucas Galati Balieiro