Iniciar a leitura de Eles eram muitos cavalos é como iniciar a leitura de qualquer outro livro, quando não se tem nenhuma informação prévia sobre o que a obra guarda. Porém basta percorrer as primeiras cinco páginas para que o leitor se veja, no mínimo, perdido. Será um livro de contos? Será um livro de poemas proseados? O leitor, perplexo, mas persistente, continua sua leitura e logo se encontra tentando estabelecer alguma relação entre uma imagem e outra, tentando dar sentido à mudança de cenário, buscando – com dificuldades – uma lógica entre as cenas inacabadas. Por volta do décimo flash a inconstância começa a tomar forma e o leitor se acalma, entregando-se de corpo e alma a cada fragmento. O corte brusco de cada retalho de realidade apresentado no livro passa a ser um exercício de desapego, e sempre o disparador da esperança de uma nova tragédia, de um novo amor, de mais uma lembrança, do inesperado.
O romance trata do homem da metrópole, pós-moderno, fragmentado, esmagado pela velocidade da vida urbana. Luiz Ruffato, em seu livro, expõe uma fotografia da cidade de São Paulo, mas não como uma vista aérea que se assemelha ao ângulo das coberturas dos arranha-céus dos bairros nobres da cidade. Sua câmera vê de baixo para cima e não registra o que há de visual, mas revela o funcionamento de uma engrenagem, a essência de uma época e de um povo – a época do não ser, o povo que não é. O autor engendra os elementos linguísticos de um modo único, sua narrativa é inconstante, torta, podre, dúbia e fria. O que se conta no livro é apenas pretexto, o escopo de homem que ele busca revelar em sua obra não se esconde no sentido das palavras escolhidas para os 70 aforismos. Este homem vive nos espaços dados entre essas mesmas palavras, nos parágrafos, no canto das páginas, no negrito e no itálico. A São Paulo de Ruffato está representada na mudança, na troca de um miniconto para outro, no devir e no porvir.
Ler este romance é algo equivalente a uma corrida de 40 minutos dentro de um táxi, atravessando a cidade na hora do rush – com os olhos atentos grudados à janela do carro. Um romance angustiante para todo tipo de leitor. O leitor prosaico, que procura enredo com começo, meio e final feliz, frustrará violentamente antes da vigésima página. O leitor que grudar os olhos à janela desse táxi e estiver disposto a se entregar ao incômodo ziguezague das palavras de Ruffato, encontrará grande gozo até a última página, porém sofrerá com a tomada de consciência do homem que não é.

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